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PRÊMIO BRASIL FOTOGRAFIA 2017

A CONDIÇÃO CONTEMPORÂNEA

Correlacionar a emergência de novas características formais na cultura com a emergência de um novo tipo de vida social e uma nova ordem econômica”.

Frederic Jameson, 1991

Vivemos um momento de dispersão dos territórios da cultura, com uma diversidade de “obras” e um sem número sempre crescente de interfaces nas redes. Novas plataformas e ambientes virtuais nos quais o espaço-informação é mapeado através de bits, softwares, hardwares que alimentam a construção da paisagem high tech contemporânea.

Perdemos nossos meios tradicionais de pensar e prever, com o domínio global da tecnociência, e passamos do “sentimento” à “experiência”, em erráticas mutações em todos os domínios; novos vocábulos na convergência das nanotecnologias, informática e robótica.

Ninguém mais sabe que ideias e que modos de expressão estarão inscritos na lista de perdas, e que novidades serão proclamadas”, predizia Paulo Valéry nos princípios do século XX. Em um mundo acelerado sem o tempo lento da reflexão, o presente é substituído pelo imediato, mais pontualmente pelo imediatismo das coisas, pelo efêmero.

A arte do hoje não dispõe de um tempo de formulações estabilizadas, assim sendo, de reconhecimento. Esta sua simultaneidade, o agora realizando, exige uma atenção especial, na proporção em que as produções artísticas estão destacadas de nossos interesses vitais, da emergência de nossas premências, desenvolvendo uma esfera quase autônoma.

Quais medidas iremos buscar para a compreensão do momento hoje? Caminhos que não serão procurados apenas nos conteúdos das obras, em suas formas, suas composições ou nos materiais. Temos de afrentar com o espalhamento, com a pluralidade dos “agoras”.

Para tornar estas obras compreensíveis, perscrutaremos fora dos domínios artísticos, através de “temas culturais, em registros literários e filosóficos - desconstrução, simulação, vazio, ruínas, resíduos e recuperação” (Anne Cauquelin).

Existe um novo sistema da arte e o reconhecimento deste sistema permite a apreensão do conteúdo das obras contemporâneas. Este sistema é o resultado de profundas alterações de antigas estruturas, não se podendo mais julgar pelos procedimentos que prevaleceram até então.

A condição contemporânea manifesta-se assim na multiplicação de centros de poder e de atividades e na ruptura de toda sorte de narrativa totalizante que possa determinar o complexo campo de atividade e da representação social.

CILDO OLIVEIRA

Curador

CATEGORIA

BOLSA DESENVOLVIMENTO DE PROJETO

UMIDUS

Na contramão da avalanche de imagens digitais produzidas no contemporâneo, sua nova função de impermanência e desaparecimento nas mídias sociais, da estética do banal, do pequeno, da fluidez do tempo, da escravização do gesto do braço, da dependência do visor luminoso e da falta de reflexão sobre o que se vê, este projeto explora justamente o contrário, resgatando a fotografia analógica no momento de sua gênese, cuja função era outra, contemplativa, e exigia uma outra relação com o tempo, tanto de concepção e produção da imagem quanto de observação e entendimento da visualidade.            

O Projeto Umidus leva esse nome em latim, cujos sinônimos são umida, umidum e refere-se à umidade, aquilo que é impregnado de água ou com vapor de água.  A água como substância formada por hidrogênio e oxigênio, líquida, transparente, incolor, insípida, inodora, indispensável para a sobrevivência da maior parte dos seres vivos. A água como condição da vida, da existência, manifesta em forma de chuva, lágrimas, suor, seiva, urina e repleta de brilho, ondulações, veios, reflexos, fluidez. Água como fronteira limítrofe de terras e mares. Água como processo.

Neste contexto o projeto adota a combinação de duas variáveis na investigação do fazer artístico, ambos com um elemento em comum: a umidade daquilo que é repleto de água, sendo o primeiro "O Rio Tietê", curso d'água do estado de São Paulo que passa por 62 municípios e o Processo Fotográfico Histórico do século XIX nomeado Placa Úmida de Colódio, Ambrotipia.

O Espaço a ser investigado é o dos municípios que nasceram em suas margens, principalmente aqueles com menos de 100.000 habitantes. Já o Processo Fotográfico Histórico do século XIX escolhido chamado Placa Úmida de Colódio, cujo nome oficial é Ambrotipia (do grego ἀμβροτός - imortal , e τύπος - registro, impressão), inventado em 1848 pelo inglês Frederick Scott Archer (1813-1857), mas introduzido apenas em 1851, é uma técnica de aplicação ainda líquida, úmida, de uma solução viscosa de piroxilina (colódio), numa superfície de vidro ou metal como suporte.

 Aqui a linguagem se enriquece na medida em que a plasticidade do material fotossensível vai imprimindo as marcas do fazer e expõem sua delicada superfície, vulnerável e frágil, protegida pelo suporte do vidro.  O olhar é convidado a dedicar atenção e tempo para percorrer com suavidade tátil todos os detalhes, entornos, contornos, cantos, formas, fundos da imagem. Desejo, memória e pulsão emergem deste exercício.

ADRIANO ESCANHUELA

Premiado